1 de jun. de 2013

Há tempos em que o tempo não passa. Em que horas são contidas num minuto e os dias parecem correr atrás do próprio rabo.

26 de mai. de 2013

Estranhos versos de rima só

É engraçado.
Já era tarde;
Eu resolvi olhar pra longe.
Bem longe.

Apertei os olhos o quanto pude
e foquei num ponto.
Teu rosto era indecifrável e eu sabia que de tão distante,
 você já não podia mais me ver.

Eu olhei bem longe...
No fim da estrada.
Desavisado, eu vi você.

É engraçado.
Num futuro tão distante...
Tudo tão discrepante
Do que eu jamais poderia prever.

17 de abr. de 2013

Na impossibilidade de falar contigo, espio, por falta de outra opção, o teu horóscopo. Não fosse vergonha o suficiente, ainda me dignifico a sentir ciúme daquilo que algum estagiário qualquer teve de escrever.

18 de fev. de 2013

Memórias de outra vida

Gabriel era poeta e quando nos apaixonamos ele me ensinou a identificar os textos que me dedicava por um sinal discreto: a primeira letra inclinada para a direita. Durante anos recebi versos de carinho marcados por nosso sinal.
Quando a guerra veio, ele foi convocado e tivemos de nos separar. Seu trabalho era enviar notícias das tropas ao restante do país. Enaltecer a nação e comunicar falecimentos. Seus relatórios eram publicados todo domingo, numa coluna espremida no jornal.
Sempre tinham a primeira letra inclinada, indicando de forma discreta o amor que tinha por mim.
A guerra demorou a ter fim, e Gabriel não voltou. Virou estudante na Europa e depois consagrou-se como escritor. Casou-se com uma espanhola com a qual teve um par de filhos.
Tenho aqui em casa tudo que ele já publicou. Das notas de falecimento aos grandes romances. Em seus livros, iniciais inclinadas sem motivo aparente me trazem aos lábios um sorriso amargo.
"Ele não me esqueceu", diz o coração que ignora o fato de sua partida.
Mas já passaram-se tantos anos que a explicação mais provável é a de que eu tenha enlouquecido. É o que parece achar Tobias que, melancólico, encosta a cabeça em meus joelhos e me encara preocupado toda vez que me vê com um livro na mão.

2 de fev. de 2013

Plano de emergência

Uma crise de 15 anos no fim da adolescência. Contida às pressas por uma cabeça de nem vinte-e-poucos anos.

31 de jan. de 2013

De tudo aquilo que você não sabe

Quando eu entro, o portão sempre faz um ruído. Vocês realmente deveriam comprar um lubrificante pra resolver o problema. Venho sempre de tênis, porque meus pés descalços sentiriam falta da grama.
Eu entro sempre pela porta dos fundos. É estranho como ninguém nunca me vê. Está sempre atulhado por aqui. Sei que você não sabe que fim dar a tudo isso, mas você precisa jogar umas coisas fora. Desculpe pela sinceridade.
Eu passo uma meia hora ali dentro. Sentada no chão, perto do armário da cozinha. Reparo no ir e vir e no som da televisão. No som dos vizinhos. Nem tanto nos seus. Os seus eu já conheço de cor.
Eu quero tirar tudo do caminho. Como eu quero... Quero contar logo o final da história e poupar-lhe alguns capítulos. Porque todo romance precisa de um clímax e o seu não será diferente. Eu sinto muito.
É difícil resistir. Não tocar em nada. Ver você assim, tão de perto e tão longe é mais difícil do que eu conseguiria imaginar antes de tudo isso acontecer.
É estranho, sabe? Se for pra ser honesta, eu nem sei como vim parar aqui. Juro pra você. Invadir sua morada nunca esteve nos meus planos. Aconteceu porque o vento quis. Como todo o resto.
Na hora de voltar pra casa eu de repente me sinto vulnerável. Acontece sempre. Tudo é sempre meio igual. Porque a história já está escrita. A verdade é essa. Não tem nada que eu possa mudar. Mas eu quero. Quero muito.
Lá fora, no mundo real, eu sempre olho pela janela enquanto volto pra casa. Sempre olho pela janela e não vejo nada. Nem mesmo o que a luz dos postes ilumina. Enquanto o balanço do asfalto embala meu corpo, o som da tua voz embala minh'alma. E dentro de mim se repete sempre a mesma cena. Eu vejo sempre a mesma coisa enquanto olho pela janela. Você não precisa saber o que. É bonito. É lindo; e você está lá.
É tudo o que você precisa saber.
Quando deito na cama, cansada e fresca do banho, me pergunto se de alguma forma você também sabe de mim. Me pergunto onde você se esconde quando visita minha casa. Me pergunto se você chora quando vai embora. Mas é um questionamento muito absurdo e cedo ou tarde eu resolvo adormecer.

23 de jan. de 2013

Vento

Era como se o vento que os cercava tivesse o poder de afastá-los ainda mais. Como se o ar gélido ao seu redor corrompesse aquele corpo já destituído de alma, fazendo-a tanto vítima, quanto prostituta. Era como se seus espíritos se perdessem de si e só restasse a eles a lógica opressora da solidão. Deixaram-se levar pelo tempo, que apertou suas mãos com força suficiente para triturar os ossos.
Era como se fosse fábula, como se fosse prosa, literatura barata travestida. Agressão. Verdade prostituída.