29 de set. de 2010

Veja o que o tempo faz, arrastando-se diante de mim, correndo diante de nós.

22 de set. de 2010

Fatos

"Fecha os olhos", disse o homem. A mulher hesitou por um segundo ou dois.

De olhos fechados diante do amante, sentiu-se como uma criança que espera receber flores, digo, uma bicicleta de natal.

Os lábios da moça ensaiaram algo, mas foram detidos pelos lábios do homem, num beijo casto. "Espera", disse ele.

A moça juntou as mãos à frente do vestido florido, sentindo-se cada vez mais infantil. Tinha nos lábios um sorriso bobo e nos olhos um brilho puro, escondido pelas pálpebras e por uma cortina de cílios grossos que lutavam para continuar em repouso.

Ouviu que o homem se afastava e sentiu o coração apertar.

Passou-se algum tempo, não importa quanto. A moça por fim abriu os olhos. Os braços caíram ao longo do corpo e ela se viu na conhecida sala de jantar. Nada mudara naquele intervalo indefinido de tempo. A louça suja ainda repousava sobre a mesa. A luz amarela ainda tornava o ambiente convidativo e um pouco melancólico.

O tapete abafava o som de seus passos até a cadeira alta e antiga. Sentou-se em silêncio e remexeu nos talheres.

Estava só.

24 de ago. de 2010

Um convite prolixo

Deve ser coisa de adolescência, mas acontece toda vez que eu saio de casa.
Eu entro no ônibus e alcanço um lugar da janela. Logo, somem todos os rostos ao meu redor. Todo som é silenciado pela música que soa consistente e sólida em meus ouvidos e as imagens perdem a forma para tornarem-se apenas um apinhado de cores e luz.
A única coisa que me resta é um punhado de palavras leves e sem pretensão alguma, que escorrem pelos dedos na hora certa.


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Me diga, você viria comigo? Apenas em silêncio? Deixaria que ele nos guiasse pra qualquer lugar onde o pôr-do-sol fosse a única imagem que fizesse sentido aos nossos olhos foragidos?
Você viria sem perguntar por quê? Sem precisar de convite, ou até mesmo de razão para estar alí?
Ao chegar lá, você saberia a hora certa de pegar minha mão? De encontrar meus lábios e cair no chão? Saberia que então contaríamos estrelas, esperando que elas caíssem do céu; e preguiçosas, repousassem e adormecessem em nossas mãos?
Passaria a noite ao meu lado, dizendo qualquer bobagem ao pé do meu ouvido só pra encontrar o meu sorriso?
Me diga, mesmo que não lhe faça sentido, depois desse humilde pedido... Você esqueceria do mundo e fugiria comigo? Pra qualquer lugar, um lugar comum; distante do resto e tão perto de tudo... Um lugar qualquer; simples, calado? Você viria só pra estar ao meu lado?

13 de ago. de 2010

Por onde ando

Entenda, por favor, que esse texto não tem a mínima pretensão de receber atenção ou elogios. Ele somente serve aos meus anseios, às necessidades que criei antes mesmo de saber como desenhar no papel minhas impressões de mundo.

E as palavras? E as histórias? Os segredos? Os amores? E as dúvidas?
Cinco perguntas que eu escrevi sem ter uma resposta. Sem ter ao meu lado a inspiração para juntar as letras num texto minimamente decente. Havia apenas aquela sensação estranha na ponta dos dedos de quem precisa falar. Com os dedos, é óbvio. O som das palavras é muito mais belo quando estas estão desenhadas num lugar qualquer.
Mas é tarde para reparos. As perguntas gritam no papel e eu preciso, mesmo que de forma nada satisfatória, respondê-las.
As palavras, meu caro, continuam ao meu lado. Silenciosas; há momentos nos quais esse silêncio me dói.
As histórias nunca foram tão interessantes. As histórias talvez sejam apenas minhas, mas eu adoraria poder contá-las a você. Talvez o faça quando as palavras recuperarem a voz.
Os segredos... Continuarão guardados, e eu pouco tenho a lhe confessar.
Os amores perderam seu fim. Os amores agora são apenas um. Bem como a dúvida.Vamos tratá-los de forma correta.
O amor talvez seja o culpado pelo silêncio pasmo das minhas palavras. O amor pois um sorriso no meu rosto que insiste em não sumir. O amor tomou meu eu e veio até mim de forma... eu não diria inesperada, mas sim, surpreendente.
A dúvida procura desesperadamente uma expressão. Uma voz. As palavras continuam caladas e assim o eco dos gritos internos não se fazem ouvir. Não se pronunciam. Vez ou outra, a dúvida alcança meus olhos, e por alguns minutos, eu consigo procurar uma resposta. O tempo não é suficiente, e antes que eu perceba, elas são emudecidas.
A dúvida, portanto, procura por onde caminhar sem censura, num quase desespero, invisível aos olhos meus.

21 de jul. de 2010

Telefone

Pra mim
Engraçado é ver nossas vozes colidindo
em tom ansioso,
um nervoso gostoso...

Menos de um minuto,
menos que uma canção.
Meu sorriso bobo no rosto
Por uma quase ligação.

Primário, sim. Ruim? Também. Tão sincero quanto se pode ser.

18 de jul. de 2010

O que define saudade?

A pergunta que acordou comigo, não encontrou resposta num dicionário. Envolvida pelo frio que me agarrava com força, minha única opção era buscar sozinha uma definição que não demorou a aparecer.
Saudade é uma daquelas perguntas que perdem o sentido quando se encontra a resposta. É a vontade pesada e silenciosa que invade os sonhos do capitão imponente de um navio pirata. A vontade de pisar em terra, atracar o barco num porto seguro e esquecer-se do mar.
Meu coração, bobo e prepotente, fez sempre a mesma rota segura e curta; num mar tranquilo, em dias de sol. Até que encontrou uma tempestade.
Sentiu-se grande, digno de respeito, e enquanto se engrandecia diante de si, afastou-se da rota, se viu perdido. Bobo, não quis se importar.
De olhos abertos e sorriso no rosto, encontrou um farol.
E encantou-se. Esqueceu-se da entrega que deveria fazer. De outros portos, dos dias de sol. Por horas, ele navegou na chuva em direção ao porto que nunca conhecera. E não o encontrou.
Com o fim da tempestade e a volta da calmaria, meu capitão voltou a si. Focou-se em recuperar a rota, em fazer entregas. Nos belos e seguros portos corriqueiros.
Mas aquela tempestade o transformou. Meu coração não mais descansa em terra e, imprudente, anseia por uma tempestade toda vez que iça as velas.
Desvios de rota que quase não aconteciam, agora são rotina. Ele vai o mais longe que pode. E para. Sai da cabine. Procura, encontra. Sorri e descansa. Diante do farol distante, o capitão se esconde de todos e observa por horas a luz lhe tocar.

2 de jul. de 2010

Retorno

Confesso que às vezes esqueço. Onde ela mora, onde ela me encontra... Esqueço por tempo demais.
Então, quando eu paro de pedir e simplesmente faço o que devo, ela aparece.
Vem carregada por anjos cientes do que trazem consigo. Vem com um sorriso bobo nos lábios que me faz esquecer de chamá-la de cínica. Cínica por ter sumido assim de repente; de achar-se livre pra ir e vir, de pensar que é importante a ponto de me fazer correr atrás dela, ou esperá-la até que ela tenha a boa vontade de aparecer.
Eu esqueço porque ela traz nos olhos tranquilos a certeza irritante de quem nunca cometeu um erro sequer.
É quando eu penso que devo parar de andar por aí de olhos fechados e tirar os sapatos.
Sentir o chão e me permitir. Então os anjos me acolhem, a colocam em meus braços, e ela é minha. Só minha. E eu faço questão de exibi-la. Eu a tenho nos lábios e ela tem o mundo nas mãos. Prepotente, celestial; simplesmente felicidade.