6 de jun. de 2010

Olhos Fechados

Às vezes me dá vontade de brincar de impossível.
De pegar na tua mão e correr pela rua.
Sozinha contigo num dia de chuva.

De me aninhar no teu peito e ouvir teu coração tranquilo.
Lhe prometer segurança,
Cheia de certeza, ao pé do teu ouvido.

Me dá uma vontade...
Não sei bem de quê.
Vontade daquilo que eu não posso ter.

1 de jun. de 2010

Bilhetes de um bilheteiro

A apresentação de nossa possível protagonista.

Olhando à minha volta eu percebi que mais uma vez tinha nas mãos vários personagens ao redor. Enquanto verificava a situação das cabines do vagão 2, numa viagem matutina - a primeira daquele sábado de começo do inverno europeu - em direção à praia que muitos diriam ser pouco convidativa, algo na cabine 9 me chamou a atenção.
Dentro dela, sentado mais próximo do corredor estava um homem de chapéu, bigode e sobretudo preto, que lançava olhares quase que invejosos para a mulher concentrada na cabine à sua frente.
Ela vestia-se como uma corretora de imóveis, mas a seriedade de seus trajes não eram refletidos por seu rosto que trazia uma expressão serena, mergulhado no jornal. Era de uma beleza respeitável e tranquila, como tudo o que a rodeava. Mas ela estava na cabine 8, portanto não é dela que quero falar.
Na cabine 9, escondida pelo homem do chapéu, estava um par de pés inquietos que mal tocavam o chão. No chão apenas os sapatos pequenos e levemente sujos de terra.
Dos pés recobertos por uma meia calça grossa e apropriada para a estação surgia um vestido sóbrio; e deste, uma menina.
Ela tinha os olhos fixos na janela, mas não estava simplesmente apreciando as montanhas nevadas. Ela evitava todo o resto. Via o reflexo de seu rosto um pouco distorcido pela sujeira do vidro. Calculo que não tenha mais de 10 anos, talvez nove ou oito. Com certeza menos de dez.
E foi por isso que ela me fez parar. Bom, este foi um dos motivos. Com certeza ela estava sozinha. Era claro à qualquer um com o mínimo de sensibilidade.
Ela era por si só uma contradição. Apesar de estar indo à praia usando um vestidinho, era esta uma madrugada de sábado, afinal. Uma madrugada de neve.
Apesar da idade infantil ela viajava sozinha e serena. Sem querer reparar em nada. Apesar da serenidade, os pés inquietos não podiam parar de balançar.
Até que ela tirou os olhos da janela e virou-se intranquila para mim. Logo a cortina preta de seus cabelos lisos e longos fora substituída pelos grandes olhos verdes e estranhamente profundos daquela criança que negava a própria juventude. Os lábios vermelhos e grossos formavam uma linha que parecia indivisível e que combinavam perfeitamente com a pele alva.
Assim que seus olhos encontraram os meus tive de olhar para o chão. Para os sapatos lustrosos fornecidos pela companhia, onde vi de relance um borrão do que era meu rosto. Ficara claro para mim que aquela menina era apenas silêncio.

12 de mai. de 2010

Licença Poética

Verdade seja dita. Pra mim, pra você. Seja dita a todos os que quiserem ouvir, aos intrometidos e também aos infelizes que não puderam evitar pois passavam distraídos por aqui.
Somos óbvios demais. E não ache que esse texto se dirige a alguém que não seja você. Você sabe quão óbvio é tudo isso.
Como sou eu, como é um terceiro qualquer. E daí a gente tenta disfarçar; tapa o buraco na parede com um quadro do pôr-do-sol.
Usamos literatura, compomos uma canção. Pintamos um retrato, e se faltar tinta vamos simplesmente fotografar.
Nem que as palavras se percam antes de alcançar o papel. Que nos falte um violão. Nem que o mármore acabe por rachar o busto perfeitamente esculpido; pra poder ser óbvio escolhemos fazer arte.
Contar mentiras bonitas pro outro olhar e fazer de conta que não entendeu. Pra gente dizer que vem do fundo da alma e não poder censurar.
Ou simplesmente toda essa mentira seja puro capricho do artista calado, que sorri de soslaio ao público desconfiado. À aquele indivíduo que sai por último do teatro. Que espera todos os atores saírem de cena atrás de uma verdade.
Por trás da cortina o elenco finge que não vê, mas lá no fundo todos entendem. Entendem porque mentem, entendem porque fingem dizer a verdade. Entendem porque enquanto todos vão embora aquele rapaz continua alí. A gente entende que ele também sabe mentir.

5 de mai. de 2010

Google it

Sem literatura por hoje. A confusão é grande demais, e o texto - que mais parece uma nota de rodapé - é ríspido; e para você, leitor, totalmente desnecessário.
A palavra mais simples do mundo, raiz de absolutamente tudo, simplesmente perdeu o sentido. Perdida num sabe-deus-o-que, eu não posso mais definir o que é amor. Nem de onde ele vem, nem como ele se dá. E eu vou pesquisar. Bendita tecnologia, eu vou descobrir o que é amor usando o google. Depois redescobrirei o que é platônico, pra então descobrir onde estou. Fim de papo. Preciso espairecer.

"Oh my, oh my,
What am I doing here?
Why did I suddenly disappear?
And honey why am I not with you?

I can see the world from where I am
I can see you're lost and you need a hand
But right now I just can't reach you

I was just a lost soul in this world
Now i know
I was just a wrong chord in your song
I don't belong

Right here there's nothing so different
I just don't have to pay the rent
And I've seen people I missed so much

I've seen rockstars and presidents
Then I realized that i'm not meant
To live without your touch"

13 de abr. de 2010

Fofocas

No ônibus, dois casais jovens. Separados um do outro pelo corredor. Não conte a ninguém, mas eles ocupam - todos os 4 - acentos preferenciais.
No casal da esquerda, a moça é visivelmente mais velha que o rapaz. Pouca coisa. Cerca de dois anos. Ela mexe no cabelo dele e ele parece não notar. Talvez esteja dormindo.
Até que ela nota o outro casal. O outro casal não, o outro rapaz.
Ele é inquieto. Sorri e olha para todos os lados, em oposição à sua companheira; uma moreninha que apesar do sorriso inocente, só tinha olhos para seu par.
O rapaz é tão inquieto que o movimento dos olhos não lhe basta. Ele puxa um pacote de doces e começa a comê-lo com aflição. Oferece um doce à menina. Não à sua moreninha. Oferece-o para aquela que lhe observa sentada no banco ao lado.
Por alguns momentos ela exita. Então ela tira as mãos do cabelo do menino (sim, ele realmente está dormindo) e pega o doce das mãos sorridentes do rapaz.
O olhar da moreninha era enigmático. Não trazia ciúme, nem tristeza. Trazia uma certa estranheza, como se fosse a primeira vez em que era apulanhada por seu amado. Como quem nunca sentira ciúme antes.
Talvez seu olhar expressasse a indignação que ela sentia pelo rapaz do outro lado perder sua amada de olhos fechados, talvez sonhando com a mesma.
Não. Os olhos da moreninha traziam apenas surpresa. A surpresa de quem não vivera algo parecido nem mesmo em sonho. Era um olhar quase que de curiosidade.
Provavelmente era. Afinal, ela -que parecia ser a mais velha desta cena de traição - não passava dos dois anos de idade.